{"id":191,"date":"2021-01-04T12:00:00","date_gmt":"2021-01-04T15:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/poiesisterapia.wordpress.com\/?p=191"},"modified":"2021-07-14T21:33:46","modified_gmt":"2021-07-15T00:33:46","slug":"aprendendo-com-o-sofrimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/2021\/01\/04\/aprendendo-com-o-sofrimento\/","title":{"rendered":"Aprendendo com o sofrimento"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-rounded\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-1024x1024.jpg\" alt=\"ilustrar o texto &quot;Aprendendo com o sofrimento&quot; com a arte japonesa kintsugi, que recobre com recobre com material dourado as rachaduras de um objeto quebrado.\" class=\"wp-image-790\" width=\"512\" height=\"512\" title=\"Kintsugi - Arte de reparar com ouro\" srcset=\"https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-300x300.jpg 300w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-150x150.jpg 150w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-768x768.jpg 768w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-1536x1536.jpg 1536w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup-100x100.jpg 100w, https:\/\/espacopoiesis.com\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/kintsugi-cup.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 512px) 100vw, 512px\" \/><figcaption><em>Kintsugi <\/em>&#8211; express\u00e3o art\u00edstica japonesa de reparar com ouro<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Manuel Bandeira foi uma importante figura do movimento modernista brasileiro, conhecido por extrair reflex\u00f5es profundas de eventos cotidiano. No poema <em>Gesso<\/em> ele consegue de maneira bem caracter\u00edstica relacionar a quebra de uma est\u00e1tua comum de gesso \u00e0 um processo interno de dor e repara\u00e7\u00e3o, no qual o eu l\u00edrico se v\u00ea aprendendo com o sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Gesso <\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p style=\"font-size:15px\"><em>Esta minha estatuazinha de gesso, quando nova<br>\u2014 O gesso muito branco, as linhas muito puras \u2014<br>Mal sugeria imagem de vida<br>(embora a figura chorasse).<br>H\u00e1 muitos anos tenho-a comigo.<br>O tempo envelheceu-a, carcomeu-a, manchou-a de p\u00e1tina<br>[ amarelo-suja.<br>Os meus olhos de tanto a olharem,<br>Impregnaram-na da minha humanidade ir\u00f4nica de t\u00edsico.<br>Um dia m\u00e3o est\u00fapida<br>Inadvertidamente a derrubou e partiu.<br>Ent\u00e3o ajoelhei com raiva, recolhi aqueles tristes fragmentos,<br>[ recompus a figurinha que chorava.<br>E o tempo sobre as feridas escureceu ainda mais o sujo<br>[ mordente de p\u00e1tina\u2026<\/em><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:15px\"><em>Hoje esse gessozinho comercial<br>\u00c9 tocante e vive, e me fez agora refletir<br>Que s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente vivo o que j\u00e1 sofreu<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:15px\">Manuel Bandeira<strong>.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O lugar do sofrimento<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Parte da inspira\u00e7\u00e3o do poema se apresenta na biografia do pr\u00f3prio autor, que jovem, foi diagnosticado com tuberculose, uma infec\u00e7\u00e3o que <strong>na \u00e9poca<\/strong> n\u00e3o tinha cura e levava a morte muitas pessoas. Esse diagn\u00f3stico foi vivenciado de maneira muito intensa por Manuel que se viu &#8220;desacreditado&#8221; frente a sua vida. Essa rela\u00e7\u00e3o do poema com esse fato de sua vida \u00e9 sugerida no verso &#8220;<em>Os meus olhos de tanto a olharem, \/ Impregnaram-na da minha humanidade ir\u00f4nica de t\u00edsico.<\/em>&#8220;, sendo &#8220;t\u00edsico&#8221;, um termo hoje em desuso, mas que na \u00e9poca nomeava a pessoa que vivia com tuberculose. No trecho ele metaforiza o processo de identifica\u00e7\u00e3o que se constr\u00f3i no texto entre ele e a representa\u00e7\u00e3o de gesso.<\/p>\n\n\n\n<p>Com isso em mente, poemos notar que no in\u00edcio do texto a est\u00e1tua \u00e9 descrita como uma est\u00e1tua de  &#8220;<em>gesso muito branco&#8221; ,&#8221;linhas muito puras&#8221; <\/em>que<em> &#8220;Mal sugeria imagem de vida<br>(embora a figura chorasse)&#8221;.<\/em> Essa descri\u00e7\u00e3o de uma est\u00e1tua t\u00edpica, pode tamb\u00e9m ser pensada como a metaforiza\u00e7\u00e3o de uma certa inf\u00e2ncia, permeada por uma pureza ing\u00eanua, maspouco relacionada com a realidade do mundo. N\u00e3o a toa, conforme o tempo passa e essa est\u00e1tua &#8220;vive&#8221;, ela passa a ser vista como &#8220;<em>velha<\/em>&#8220;, &#8220;<em>carcomida<\/em>&#8221; e &#8220;<em>manchada<\/em>&#8220;, num processo de matura\u00e7\u00e3o quase org\u00e2nico. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas apesar de estar mais &#8220;vivida&#8221; \u00e9 somente no f\u00e1tidico dia de sua quebra que a exist\u00eancia dessa escultura se modifica de fato. O poeta descreve um evento motivado por estupidez que resultou na fragmenta\u00e7\u00e3o da est\u00e1tua. Ele ent\u00e3o a recop\u00f5e e nota que \u00e9 justamente nas linhas dessa fragmenta\u00e7\u00e3o que se formam padr\u00f5es escurecidos, quase como cicatrizes no gesso, e \u00e9 nesse momento que bandeira diz &#8220;<em>Hoje esse gessozinho comercial \/ \u00c9 tocante e vive, e me fez agora refletir \/ Que s\u00f3 \u00e9 verdadeiramente vivo o que j\u00e1 sofreu<\/em>.&#8221; Nesse trecho final o poeta considera que \u00e9 justamente o sofrimento vivenciado que circunscreve a identidade daquele objeto. <\/p>\n\n\n\n<p>O poema de Bandeira traduz muitos aspectos da experi\u00eancia da vida humana, quantas vezes n\u00e3o somos interpelados por dores e decep\u00e7\u00f5es que s\u00e3o sentidas como cortes profundos que parecem irrepar\u00e1veis? O autor, no entanto, prop\u00f5e um novo olhar sobre isso, quem ser\u00edamos sem essas marcas e o que podemos construir com elas?<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><a href=\"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/blog-2\/\" title=\"Blog: Poiesis: Psicologia, Sa\u00fade e Arte\">Leia mais<\/a>.<\/h3>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p style=\"font-size:15px\">P.s: Apesar de experienciar a <a href=\"https:\/\/www.saude.mg.gov.br\/tuberculose\" title=\"https:\/\/www.saude.mg.gov.br\/tuberculose\">tuberculose<\/a> na juventude, <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manuel_Bandeira\" title=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Manuel_Bandeira\">Manuel Bandeira<\/a> se recuperou e viveu at\u00e9 os 82 anos, publicando muitos livros e ocupando a Academia Brasileira de Letras. Hoje a infec\u00e7\u00e3o por tuberculose \u00e9 cur\u00e1vel com antibi\u00f3ticos eficazes, em caso de tosse seca por mais de tr\u00eas semanas, procure uma UBS para realizar o teste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Bandeira foi uma importante figura do movimento modernista brasileiro, conhecido por extrair reflex\u00f5es profundas de eventos cotidiano. No poema Gesso ele consegue de maneira bem caracter\u00edstica relacionar a quebra de uma est\u00e1tua comum de gesso \u00e0 um processo interno de dor e repara\u00e7\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5,8,9],"tags":[16,17,24,34,43,49,50,51,59,62,63,64],"class_list":["post-191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicologia","category-saude","category-saude-mental","tag-arteterapeuta","tag-arteterapia","tag-depressao","tag-luto","tag-poesia","tag-psicologia-existencial","tag-psicoterapeuta","tag-psicoterapia","tag-sofrimento","tag-superacao","tag-terapeuta","tag-terapia"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=191"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":856,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/191\/revisions\/856"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacopoiesis.com\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}